Palavras do Abade Isaac sobre a qualidade da oração (João Cassiano)

30/01/2020

O fim de todo monge, isto é, a perfeição de coração, tende para uma contínua e interrupta perseverança de oração e, quando é dado á fragilidade humana, visa alcançar a inalterável tranquilidade de alma e a pureza perpétua, por causa da qual procuramos incansavelmente e exercitamos continuamente quer todo o trabalho corporal quer a contrição do coração. E existe entre uma e outra - entre a pureza do coração e a perseverança da oração - uma recíproca e indissolúvel ligação. Com efeito, assim como o edifício de todas as virtudes tem por objetivo a perfeição da oração, assim também, se tudo não for entravado e ligado pela abóboda da oração, nada poderá permanecer firme e estável. Pois, assim como sem as virtudes se não pode adquirir ou aperfeiçoar a constante e contínua tranquilidade de oração, de que falamos, assim também aquelas, que lhe servem de alicerce, sem a assiduidade desta, jamais chegarão á sua perfeição. E, por conseguinte, não poderemos, com uma súbita dissertação, tratar convenientemente da eficácia da oração e penetrar no seu fim principal - o qual se obtém pela prática de todas as virtudes -, se primeiro não forem enumeradas por ordem e destrinçadas todas as coisas que, para obtenção daquela, devem ser eliminadas ou preparadas, e, segundo o ensino da parábola evangélica (cf. Lc 14,28), se previamente não forem calculadas e diligentemente coligidas todas as coisas atinentes á construção daquela altíssima torre espiritual. Mas os materiais assim preparados de nada aproveitarão nem suportarão convenientemente as altas abóbadas da perfeição, a menos que, removido previamente todo o entulho dos vícios e desenterrado o cascalho movediço e morto das paixões, se lancem sobre a terra viva - como dói dizer-se - e sólida do nosso coração, ou antes sobre aquela rocha de que fala o Evangelho (cf. Lc 6,8), os firmíssimos alicerces da simplicidade e da humildade, nos quais se possa apoiar inabalavelmente e, confiante da própria firmeza, elevar-se para as alturas, esta torre a construir com a prática das virtudes espirituais. Com efeito, assente sobre tais alicerces, ainda que sobrevenha o dilúvio das paixões, ainda que contra ela batam, qual aríete, as violentas torrentes das perseguições, ainda que sobre ela irrompa e se abata a furiosa tempestade dos espíritos inimigos, não só não a vencerá a ruína, mas nem sequer o próprio embate a fará de qualquer modo estremecer.

Da oração, Cap. II. - João Cassiano.