17 de Setembro Sexta-feira a Vigésima Quarta Semana do Tempo Comum

Leituras: 1 Coríntios 15,12-20

Evangelho: Lucas 8,1-3.

Leitura Patrística

Da Carta a Proba, de Santo Agostinho, bispo

O Espírito intercede por nós

Quem só pede ao Senhor a bem-aventurança e só por ela anseia, pede com segurança e certeza e não teme receber com ela qualquer dano, porque pede aquilo sem o qual de nada lhe serviria qualquer outra coisa que recebesse, orando como convém. Esta é a única verdadeira vida, a única vida bem-aventurada: contemplar eternamente a bondade do Senhor, na imortalidade e incorruptibilidade de corpo e alma. Só por causa desta felicidade se buscam outros bens, só com esta finalidade se pede como convém. Quem alcançar a vida bem-aventurada terá tudo o que deseja e nela nada encontrará que não lhe convenha.

Ali está a fonte da vida, da qual agora sentimos sede na oração, enquanto vivemos na esperança sem ver ainda o que esperamos, refugiando nos à sombra das asas daquele em cuja presença estão todos os nossos desejos, para saborearmos a abundância da sua casa e nos saciarmos na torrente das suas delícias; porque nele está a fonte da vida e é na sua luz que veremos a luz (cf. Sl 35 [36],8-10),quando na sua bondade saciarmos todos os nossos desejos e já nada tivermos que pedir com gemidos, porque tudo possuiremos com alegria.

Mas, como essa vida é a paz que supera todo o entendimento, também quando a pedimos na oração, não sabemos o que pedimos. Não sabemos de fato o que pedimos, porque não conhecemos essa paz. Ao pensarmos nessa vida inefável, rejeitamos, recusamos e desprezamos tudo o que vem à nossa mente, sabendo bem que não é isso o que buscamos, embora não saibamos verdadeiramente o que esperamos.

Há em nós, por assim dizer, uma douta ignorância; douta, sem dúvida, porque instruída pelo Espírito Santo, que vem em auxílio da nossa fraqueza. De fato, diz o Apóstolo: Se esperamos o que não vemos, é porque o aguardamos com perseverança; e acrescenta: O Espírito vem em auxílio de nossa fraqueza. Pois não sabemos o que pedir nem como pedir; é o próprio Espírito que intercede em nosso favor com gemidos inefáveis. E aquele que examina os corações sabe qual é a intenção do Espírito, pois é de acordo com Deus que ele intercede em favor dos santos (Rm 8,25-27).

Isto não há de entender-se como se o Espírito Santo de Deus, que na Trindade é Deus imutável, um só Deus com o Pai e o Filho, intercedesse pelos santos como alguém que não fosse Deus. Diz-se, com efeito: Intercede em favor dos santos, porque os move a interceder, do mesmo que se diz: O Senhor vosso Deus vos põe à prova, para saber se o amais (Dt 13,4),isto é, para vo-lo fazer saber a vós. Efetivamente, o Espírito de Deus move os santos a interceder com gemidos inefáveis, inspirando-lhes o desejo daquela sublime realidade ainda desconhecida, mas que esperamos com perseverança. Aliás, como seria possível falar de uma realidade que se deseja e que ainda se ignora? Certamente, se fosse totalmente desconhecida, não poderíamos desejar essa realidade sublime; por outro lado, se já estivéssemos vendo, não a buscaríamos nem a pediríamos com gemidos inefáveis.