Constituenda est ergo nobis dominici scola servitii." Prol. 45 

Por Dom Basílio Penido OSB (1914-2003)

O mosteiro é primeiramente um lugar de monges. Tudo nele fala sobre esse destino primordial de servir de ambiente, de "locus", para uma comunidade de monges. Estes querem viver como filhos de Deus, numa consciência crescente de sua unidade com o Criador e sua consequente união com todos os seres humanos. Vivem uma grande reconciliação humana, onde todos são irmãos porque pertencem ao mesmo Pai, e é para este Pai que caminha a longa peregrinação da humanidade sofredora em busca da Verdadeira felicidade. Tudo no mosteiro - arquitetura, modo de comer e vestir dos monges, costumes comunitários - traduz essa finalidade primária e ajuda assim os que abraçam a vida simples e austera a atingirem seus objetivos.
Olinda, cidade de luz e beleza, foi o lugar escolhido pelos monges portugueses da CONGREGAÇÃO Lusitana da Ordem de São Bento, que nas últimas décadas do século XVI nela se instalaram.
Sendo os primeiros a chegar, souberam os monges ocupar os espaços mais belos e felizes. A vista para o mar, a vegetação tropical, os coqueiros agitados pelo vento, cujo ruído lembra a doce chuva das graças de Deus, tudo era adequado, tudo favorecia a realização da vida de oração e trabalho que resume a consagração a Deus e o seguimento de Cristo.
Verdade é que o lugar está hoje também marcado por ruídos de agitação urbana, opostos à calma contemplativa, que sacodem periodicamente a cidade da luz e, desafiando a tranquilidade monacal, tentam expulsar os monges do lugar escolhido. Tudo em vão! Com calma e perseverança, os beneditinos, fiéis à sua tradição de paciência, atravessaram quatro séculos, enfrentando toda sorte de problemas e obstáculos. Dentre eles o menor não foi, por certo, o incêndio e destruição dos edifícios monásticos durante o saque de Olinda no princípio do século XVII.
Hoje, holandeses estão entre os principais benfeitores no auxílio às obras sociais, e outras, empreendidas pelos monges. A paciência beneditina sabe esperar.
Reduzidos, no fim do século passado, por múltiplas adversidades, a dois monges apenas, hoje o mosteiro vê plenamente recuperada sua comunidade, após a histórica restauração empreendida inicialmente por monges da Congregação beneditina alemã de Beuron, e completada por inúmeros brasileiros que substituíam pouco a pouco os missionários europeus. 
Contudo, o mosteiro é também "mistério de Deus", pois encerra o que não se pode ver ou narrar, todo o jogo daquilo que um moderno autor, paradoxalmente admirador da vida monástica, denominou a maior aventura do mundo. Por quê? Haverá algo de maior do que a partida de alguém à procura de Deus? Na realidade, trata-se da mais profunda procura do sentido da vida. Haverá porventura coisa mais nobre e gratificante que a busca da face perdida, da identidade própria esquecida nos espelhos do paraíso primitivo donde foi expulso o ser humano?
 É na vida simples e cotidiana, propícia ao caminho interior, com uma disciplina despida de qualquer aspecto ditatorial - mas traduzindo o que seu nome significa, o discipulato - que o monge se torna aprendiz dos valores eternos. 
Não nos esqueçamos, contudo, de assinalar o fato de que o monge beneditino é cristão. Não é o discípulo de qualquer um, mas somente de Jesus Cristo e do Evangelho.
Muitos, em nossos dias, querem um monaquismo decalcado quase exclusivamente em padrões orientais, e de modo muito especial nos ensinamentos da religião budista. Não há dúvida de que existe muita autenticidade naquelas formas comprovadas por uma sabedoria milenar.
O monge cristão, porém, não deseja - para falar à maneira de São Paulo - senão conhecer e gloriar-se em Jesus Cristo, o Filho de Deus feito homem. Ele é precisamente aquela imagem, aquela identidade perdida e reencontrada, o espelho e a tradução do único Pai, procurado ansiosamente no impulso do desejo espiritual. É na oração de Jesus que o monge de São Bento vive sua procura. Por isso compreende dia a dia tudo que diz o nome do Salvador - Significado do nome Jesus. Estabelecido na procura de Deus em Cristo, o beneditino encontra e aceita em toda humildade a missão, não menos sobre que a procura, de servir aos homens seus irmãos. 
Durante quatro séculos, os monges exerceram sua missão nesse lugar, nessa Olinda, tentando compartilhar a benção da vida nova com todos e em especial com os pobres.
Em nossos dias está próspero o mosteiro, mesmo no meio, como seria de esperar, de uma luta contínua. Muitos hoje não querem compreender que a vida do monge seja uma luta. Concebem-na, antes, como tranquilidade e paz. Todavia, as duas coisas não são contraditórias quando pensadas em termos evangélicos, uma vez que Jesus sublinhou a diferença entre a sua paz e a paz do mundo. A paz do monge é a paz de Deus, que se identifica com o martírio quotidiano, a luta pelo bem contra o mal, a distribuição da justiça e da paz aos homens. 
Não seria cabível enumerar as realizações dos monges em Olinda e Pernambuco. São citadas frequentemente as mais notáveis: a Faculdade de Direito, primeiro estabelecimento de ensino superior de todo o Brasil, a Escola de Agricultura e Veterinária, que se tornou a Universidade Federal Rural de Pernambuco, o Colégio de São Bento. Falei nos pobres. Funcionou no mosteiro, em tempos coloniais, um hospital de escravos. Hoje é a Obra Social que socorre os indigentes da área com o auxílio vindo, em geral, de benfeitores estrangeiros. O próprio edifício monacal, restaurado constantemente por contribuições de amigos, se projeta cada vez mais como ponto histórico e artístico, atraindo centenas de visitantes. Entretanto, como disse acima, o mais importante é o crescimento interior das almas. Essa é a obra invisível de Deus e a mais importante.
Ad Multus Anos!